Vinho, uma taça de Cristal, um amor, um abraço e sem gelo por favor” por Edna Gomes

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Vinho, uma taça de Cristal, um amor, um abraço e sem gelo por favor” por Edna Gomes


Hoje (29/08) comçamos uma colaboração prazerosa com a jornalista Edna Gomes, que semanalmente estará conosco com sua coluna “Prazeres á Mesa“. Gastronomia, poesia, cultura, vinhos e muito mais.

Na França, a história conta do turismo e sobre a gastronomia nas regiões de Bordeaux e Saint-Èmilion.

Ao visitar a revolucionária França, berço dos direitos cidadãos estabelecidos para o mundo moderno fui conhecer Bordeaux que aparece assim, sem avisar, imersa que se encontra no universo delimitado no romantismo e liberdade do amor.

É uma cidade que conta com mais de 250 mil habitantes, situada na região dos vinhos e tem uma área geográfica onírica, totalmente rural, coalhada de vinhedos, pastos e bosques. Em direção oposta, a cultura daquela cidade está em plena erupção, Bordeaux é uma cidade grande, bonita e jovem, destaca-se em sua efervescente vida turística e bucolismo, além de excelente centro de compras e vida culturalmente rica e latente.  Ali existem também grifes reconhecidas internacionalmente e que o turista ama e consome, expostos e disponibilizados no mercado sob grifes da elegância tais como Hermès, Louis Vuitton, Longchamp e Anne Fontaine, além, é claro, das excelentes multimarcas rotuladas, como a “Axsum”. Os últimos anos foram fundamentais para que, a que antes conhecida enquanto a Bela Adormecida sob as sombras de suas incontáveis parreiras assumisse o merecido posto de La Belle du Jour.

Segundo um artigo estampado no internacional The New York Times, Bordeaux tornou-se a nova Paris. Embriagada de felicidade por me encontrar, de novo, em Bordeux, da última vez que pisei suas ruas – únicas – só desejei andar pelo centro que pulsa convertido em calçadões para pedestres, sem preocupar com trânsito de veículos automotores, ocupando os turistas somente ao olhar atento às vitrines que movem o capitalismo mundial pelas vias do consumo, tanto de grifes, como de estadias em hotéis, pousadas e hostels, restaurantes maravilhosos que servem pratos e bebidas indescritíveis a outros sentidos humanos incapazes em definir o prazer da gustação e olfato.

Bordeaux

Às margens do Rio Garonne instala-se, imponente, um grande parque onde os moradores correm, pedalam e passeiam dezenas de cães e outros animais domesticados pela floresta urbanizada. Velhos armazéns metamorfoseados em bares, instalados com discotecas e lojas de consumo de itens afins. A moda da vez, naquela região é Chartrons, local ímpar onde acontece a feira dominical Marché des Quais.

Em 2007, metade da capital do vinho foi tombada em Patrimônio Universal pela Unesco, reconhecida, passou a somar numa mesma geografia mais de 350 edifícios históricos.

A saga continua quando, atualmente, as ruas de acesso à belíssima igreja Saint-Michel, atualmente em obras, bem como a fonte da apoteótica Place de la Bourse, uma verdadeira joia rara da coroa em pleno centro,  cujos edifícios refletem no espelho d’água formando uma imagem única, intrigante e sublime. Para curtir o universo do vinho Bordeaux, sem sair da capital, comece pelos workshops e a partir da degustação disponibilizada no Bar a Vin. Depois, tome um trem regional e viaje pela Região de Bordeaux até à magnífica vila medieval de Saint-Émilion, de reconhecida historicidade e importância exuberante. Ao redor da colina que sustenta a cidadezinha, mágica e recomendável, o vinho é produzido, desde o domínio do lugarejo pelo Império Romano, para atender os peregrinos com destino incerto ao controverso Caminho de Santiago, tema de livros e filmes, verdades e metáforas.

Saint-Emilion-Bordeaux

Simples como um sonho bom, Saint-Émilion tem a maior igreja monolítica do continente da Europa, talhada a partir do século IX. As pedras calcárias, extraídas do próprio solo, para a construção da cidade, resultaram em 200 quilômetros de túneis subterrâneos e catacumbas, muitos deles, aproveitados na condição de caves. Nos vilarejos Margaux e Pauillac, duas das inúmeras e pequenas grandes coisas de Médoc, a mais famosa das sub-regiões dos vinhedos que cercam a cidade, onde tudo é muito perto e lugar destinado à produção do Margaux, ícone da excelência do vinho Bordeaux. Além de criar o tinto número um em termos de pompa, aquela vinícola é uma das que, de fato, instalaram-se em seu próprio castelo para chamar de sede. A propriedade quase não recebe os turistas, a não ser a partir de reservas.

O discurso sobre as propriedades do vinho, particularmente, são uma chatice. Quando acontece na casa de um amigo que entende ser um conhecedor da bebida, torna-se desagradável tolerar o exibicionismo, discutindo as notas de cereja ou sua textura aveludada, que aliás, fazem sentido em alguns lugares como Châteaus na mencionada Região de Bourdeux, onde a taça às mãos, e, na companhia de alguns dos grandes enólogos, nada é absolutamente prazeroso como degustar um bom vinho, acompanhado de um “baita contexto”. Indico aos leitores de Prazeres à Mesa viajarem para Bordeaux entre os meses de junho e agosto. Agora é a hora certa e o tempo certo, ao lado da companhia certa, aquele paraíso proporciona as vistas mais bonitas, das plantações muito verdes, carregadas em uva prematura e perene.

Em toda a região da Grande Bordeaux existem diversas vinícolas, abertas à visitação, onde o viajante turista deverá escolher qual a localidade ou sub-região lhe será interessante e fazer da reserva, diretamente com o Château, um destino de prazer imensurável. No Pomerol, eu amei visitar os famosos Château Pétrus, Château Le Pin e o Vieux Château Certan, pois nessa sub-região, existe a felicidade e probabilidade de ser recebido no Le Pin, considerado um dos vinhos mais finos e perfeitos do planeta.

Na Região do Médoc, a dica é tentar visitar o Château Du Tertre, que produz um vinho considerado muito bom, com a conveniência de ser mais acessível do que os reconhecidíssimos e famosos Châteaux Lafite-Rothschild, Mouton-Rothschild, Château Latour e Château Margaux. Observando, é claro, que conseguir visitar algum desses estrelados é tarefa que torna a experiência turística em oportunidade de vida que definitivamente não será a última, mas a única.

A França é e será sempre o sinônimo da alta gastronomia, e, é justamente isso que eu encontrei nas regiões de Bordeaux e Saint-Émilion, onde estive visitando e deliciei alguns restaurantes incríveis, com destaque para dois lugares que enquanto sommelier  indico para ir visitar e “se comer rezando”, ou melhor, tomando muito vinho. O restaurante gastronômico do Hotel Hostellerie de Plaisance, possui duas estrelas no Guia Michelin, comandado pelo renomado chef francês Philippe Etchebest. Sua cozinha contemporânea destaca-se sob o tempero equilibrado de uma leve influência asiática.

Medoc

Jantar no La Cape Restaurant, instalado numa cidadezinha, próxima ao Aeroporto de Bordeaux, a reconhecida Cenon, restaurante que possui uma estrela no Guia Michelin é indispensável, pois sua cozinha, inventiva e moderna, revela uma verdadeira experiência gastronômica de prazer e saciedade proporcionados pelos pratos deliciosos de apresentação impecável. Ali o pão, dos deuses e inesquecível, traz o sabor e a textura no ponto, enfim, o melhor pão a se degustar na França das revoluções e do turismo. Comece com uma entrada de cogumelos servidos com mousse de batatas, depois, ordene o peixe branco com aspargos frescos, tudo devidamente harmonizado com uma garrafa de vinho estampada com rótulo local.

Reacendendo mais estas lembranças de inúmeras viagens, percebi o quanto é preciso carregar a mochila, esquecer momentaneamente os problemas, simplesmente ver o tempo passar. Dar gargalhadas, deitar na grama com os pés descalços apontados para o céu, trazer à lembrança as besteiras sinceras do tempo de criança, sentar-se à mesa com amigos sensíveis, verdadeiros, que falam bobagens importantes, apreciar o vinho na taça da sabedoria e apreciar as belezas desse gigantesco e intrigante universo!

Se, como disse Mário Quintana: “Viajar é mudar a roupa da alma”, então, que viva Paris!

Edna Gomes, jornalista, gastrônoma, sommelier, poeta

 

 

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