Priscila Albuquerque a primeira solista do Ballet do Theatro Municipal do Rio de Janeiro é a nossa entrevista de hoje

On 27 de agosto de 2018 by Ze Ronaldo

Entrevistamos por e-mail  a bailarina Priscila Albuquerque, a primeira solista do Theatro Municipal do Rio de Janeiro e ela nos contou um pouco da sua trajetória. Desde de menina até hoje. Suas conquistas e sua luta e seus desejos. Nessa matéria tivemos a colaboração do fotógrafo e cineasta Daniel Benassi que dirigiu o vídeo e as imagens de Léo Lemos e Marcelo Tabach. Uma oportunidade para conhecer um pouco como linda e difícil a vida da bailarina.

“Meu nome é Priscila Albuquerque. Sou carioca, tenho 36 anos do signo de Peixes. Comecei o ballet clássico com 6 anos numa academia perto da casa onde morava na Praça Seca porque tinha os pés pra dentro, ‘en dedan’ como dizemos no ballet. E além de tropeçar enquanto caminhava, eu ainda usava aquela bota ortopédica que os coleguinhas falavam que parecia de soldado. Eu morria de vergonha. Então meu pediatra aconselhou minha mãe de me colocar no ballet, pois ajudava a “consertar”. Foi assim que a dança entrou na minha vida e nunca mais larguei dela. E a dança sempre fez parte do meu dia a dia. Desde criança dançava em casa e em tudo que era festa e ainda danço, mas não mais em todas.

Entrei com 9 anos na Escola Estadual de Danças Maria Olenewa, uma escola pública onde ingressa-se por seleção e também é a escola ligada ao Ballet do Theatro Municipal do RJ, onde me formei com 15 anos. Essa fase foi de confirmação do que eu queria ser, uma bailarina profissional. Precisava de muita disciplina e dedicação, além de ter que conciliar com os meus estudos, então eu passava horas no trânsito da zona oeste para o Centro onde era a Escola EDMO. Entrava no colégio às 7h da manhã no Catete e depois ia direto pra EEDMO quando os amiguinhos do colégio iam muitas vezes socializar juntos. Fazia varias coisas no trânsito: comia, estudava, dormia e até trocava de roupa quando estava de carro com minha mãe ou meu pai. Aliás, sem meus pais eu jamais conseguiria me formar como bailarina. O apoio dos pais nesse momento é muito importante.

Na vida, toda escolha exclui todas as outras e ao optar pelo caminho de bailar profissionalmente tive que abdicar de algumas coisas como fins de semana de lazer ou até mesmo férias em que eu passava ensaiando. E eu gostava. Acho que o processo com seus prós e contras fazem parte do aprendizado e também da conquista. E a arte me proporcionou e proporciona muitas alegrias. A sensação de sair de uma apresentação, resultado de um processo que requer muito suor e afinco é inexplicável. Tiveram algumas vezes que me emocionei no final do ballet, na hora dos aplausos. Principalmente em papéis mais desafiadores como intérprete”.

Priscila Albuquerque – Foto Conrado Krivochein

“Tenho muito orgulho de ser Primeira Solista da Cia que sempre desejei fazer parte e por ser na cidade que amo. Mas, estamos num momento crítico do Estado do RJ onde a cultura sofre enormemente. É uma lástima esse período de baixíssima produção nesses últimos anos. E isso causou grande êxodo de bailarinos brasileiros para o exterior à procura de produzir, mais do que uma busca por um salário melhor. Afinal o bailarino além de artista é também atleta e o tempo é algo determinante por requerer muito do corpo. De qualquer forma, o salário de um bailarino de Corpo de Baile do Theatro Municipal RJ dentro da realidade brasileira não é dos piores, porém não é o ideal dentro da realidade de um bailarino de alta performance.

Precisamos de acompanhamentos muscular e nutricional -psicológico também seria excelente – que não temos de suporte na nossa Cia e que em geral nas outras de porte semelhante à nossa têm, por isso ficam na conta do próprio bailarino essas atividades paralelas que são imprescindíveis para um bom desempenho. Acho que além dessa estrutura faltosa para o Ballet do TMRJ, a pouca quantidade de espetáculos na pauta da Fundação e a falta de divulgação são as grandes diferenças entre as Companhias de Dança no exterior para a nossa.

Já estou no Ballet do TMRJ há quase 20 anos, tendo sido estagiária depois de formada pela EEDMO, ingressando como contratada com 17 anos, e concursando para funcionária pública em 2002″.

Priscila Albuquerque – Foto Conrado Krivochein

Sou Primeira Solista desde 2005. Tive a honra de trabalhar com grandes nomes da dança como Natalia Makarova, Jean Yves-Lormeau, Elizabeth Platel, Tatiana Leskova, entre outros, em que fizemos grandes produções de grandes ballets de repertório e neoclássicos. O que falta hoje em minha opinião é atualizarmos as produções com novos coreógrafos que estão sendo dançados em todas as grandes companhias de ballet do mundo. Não podemos nos manter estagnados com os mesmos ballets dos mesmos remontadores há anos. Companhias tradicionais e representativas como a do Ballet do Theatro Municipal RJ precisam ser versáteis, ecléticas, múltiplas, pois o mundo globalizado de hoje demanda isso.

Adoraria dançar trabalhos de coreógrafos atuais como Ohad Naharin, Nacho Duato, Mats Ek, Jiri Kylian. Se realizar somente um dessa lista, estarei feliz. Dos de repertório clássico, a personagem Mercedes de Don Quixote é também ainda um desejo.

Priscila Albuquerque -Foto Carlos Veras

Porém dentro da realidade que vivemos com a crise brasileira atual é preciso ser inventivo e trabalhar com o que temos da melhor forma possível, incentivando novos coreógrafos brasileiros ou não, para o repertório da Cia, por exemplo. Outra grande diferença para com as Cias de Dança no exterior são os apoios de empresas privadas que junto com o Governo dão a devida estrutura para que o resultado e retorno sejam o melhor possível. Incentivo cultural é uma grande responsabilidade para uma boa estrutura social, afinal a arte tem a capacidade de transformar o humano, fazê-lo refletir. Não é à toa que temos tantos projetos sociais em comunidades voltados para a atividade artística e que não param de desenvolver grandes talentos. Lecionei por dois anos no Projeto Teatro em comunidades da professora Marina Henriques associada às Redes de desenvolvimento da Maré, quando eu ainda era universitária do curso de artes cênicas da UniRio. Sou atriz formada pela UniRio. E nessa época em que lecionei na Maré, foi um grande aprendizado como artista e pessoa.

Meu interesse veio de uma inquietação da artista-cidadã-ser política por me sentir muito na bolha do mundo da dança. Sentia necessidade de usar tudo que aprendi de uma forma que alcançasse algo que me movesse socialmente, do lugar de conforto. Nessa época sempre pedia à presidência da fundação do TMRJ ingressos para todos dos projetos que chegavam a 50 alunos. E essa formação de plateia precisa ser uma obrigação por dar acesso aos que nunca tiveram. É uma maneira inteligente de fazer o diálogo entre artista e espectador cada vez mais frequente.

Em julho desse ano também fiz assistência de direção e direção de movimento de uma peça de teatro que estreou no Teatro Serrador. E há alguns anos atrás também coreografei para o Ballet TMRJ e para o Grupo de Dança D.C. Gosto muito olhar de fora e de criar.

A dança, pra mim, é uma manifestação natural do corpo e da alma. Desde crianças dançamos genuinamente, sem a menor consciência de que algo se expressa, sem rigor ou julgamento. Porque é natural, humano.  Não tem jeito certo ou errado de dançar. Tem o seu jeito.

 

 

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