Exposição no IMS Rio apresenta obra da fotógrafa Maureen Bisilliat em diálogo com a literatura

//Exposição no IMS Rio apresenta obra da fotógrafa Maureen Bisilliat em diálogo com a literatura

Exposição no IMS Rio apresenta obra da fotógrafa Maureen  Bisilliat em diálogo com a literatura


Retrato da fotógrafa Maureen Bisilliat. Ao fundo uma de suas fotos feitas no Alto Xingu.

No próximo sábado (9 de novembro), o IMS Rio inaugura uma exposição da fotógrafa Maureen Bisilliat (1931). Nascida na Inglaterra e naturalizada brasileira, Bisilliat registrou os costumes, as paisagens e as tradições nacionais. Ao longo de sua trajetória, também criou obras em diálogo com consagrados escritores brasileiros. Essa vertente de sua produção é o tema desta mostra, com curadoria da própria Bisilliat e de Miguel Del Castillo, curador da Biblioteca de Fotografia do IMS Paulista. No dia da abertura (9/11), às 18h, os dois participam de uma conversa gratuita com o público no auditório.

Intitulada Escrever com a imagem e ver com a palavra: fotografia e literatura na obra de Maureen Bisilliat, a mostra é uma versão ampliada de uma exposição inaugurada em outubro de 2018 no IMS Paulista. A seleção reúne trabalhos de Bisilliat – principalmente livros – nos quais suas fotos dialogam com a produção de grandes escritores nacionais, como Adélia Prado, Carlos Drummond de Andrade, Euclides da Cunha, João Guimarães Rosa, Jorge Amado, entre outros. Além dos livros e de correspondências da fotógrafa com alguns dos autores, e outras sobre temas como a edição dos livros, também são exibidas matérias de jornais, bonecos de livros, cópias de trabalho de época, fotolitos e outros itens relacionados.

Dentre os livros apresentados, está A João Guimarães Rosa (1969/1974), inspirado em Grande sertão: veredas. Após ler a obra de Guimarães, Bisilliat decidiu registrar o sertão mineiro. Ela procurou o autor, que a encorajou a seguir adiante. Desse encontro, surgiu uma cumplicidade: Bisilliat viajava para o sertão e voltava ao escritor para lhe mostrar as fotos. Atrás delas, ele anotava nomes de pessoas e lugares. As imagens mostram paisagens e personagens específicos, incluindo o famoso vaqueiro Manuelzão. 

A mostra inclui também Sertões: luz & trevas (1982), livro que a fotógrafa considera mais bem-acabado e que, neste ano, ganhou uma nova edição pelo IMS. A obra combina trechos de  Os sertões, de Euclides da Cunha, com imagens que Bisilliat produziu entre 1967 e 1972 no Nordeste brasileiro. No prefácio do livro, a autora anota que, nos 80 anos que separam o texto de Euclides de suas imagens, poucas mudanças ocorreram em favor dos sertanejos da região. Esse caráter de denúncia se alia, nas páginas do livro, a um tom poético, que vê o sertão como local mítico.

A união entre o estético e o social também aparece em O cão sem plumas (1984). O livro traz o poema homônimo do escritor pernambucano João Cabral de Melo Neto, publicado originalmente em 1950, acompanhado por imagens de Bisilliat. As fotos haviam sido feitas originalmente para uma reportagem da revista Realidade sobre a região de Livramento, na Paraíba, onde homens e mulheres viviam da pesca do caranguejo. A fotógrafa comenta o diálogo entre o texto e as imagens: “Para o João Cabral, o ‘cão sem plumas’ era o Capibaribe, em Pernambuco; para mim, é esse rio em Livramento, na Paraíba”.

A seleção traz ainda Chorinho doce (1995), publicação fruto de uma parceria de Bisilliat com Adélia Prado. A fotógrafa admirava a produção da autora mineira e propôs que fizessem um livro em conjunto. A própria escritora selecionou seus poemas, que são associados por Bisilliat a fotografias que fizera em suas muitas viagens ao vale do Jequitinhonha, acompanhada de seu marido, Jacques, para coletar peças de arte popular para sua loja/galeria O Bode. 

Outro destaque é o livro A visita (1977-1979), composto por um poema então inédito de Carlos Drummond de Andrade, acompanhado por fotos de Bisilliat. A publicação foi uma iniciativa do bibliófilo José Mindlin, que convidou a fotógrafa para o projeto e a acompanhou em uma viagem a Ouro Preto (MG), onde as imagens seriam produzidas inicialmente. Contudo, pensando que as fotos não condiziam com o projeto, a fotógrafa lembrou das pedras que apanhara ao longo do percurso e resolveu então retratá-las em macrofotografias, resultando em uma série de imagens abstratas que acompanham o texto de Drummond.

Lançado em 1996, Bahia amada/Amado ou O amor à liberdade & a liberdade no amor tem como tema a literatura de Jorge Amado, escritor com quem Bisilliat teve mais proximidade. Os textos, selecionados pela fotógrafa, vêm de 12 livros do autor, e por isso o volume, que possui uma clara intenção de retratar a atmosfera de toda sua obra, é o mais extenso deste conjunto. Segundo a fotógrafa, Amado possui uma “linguagem amorosa, exuberante e trágica”.

Em cartaz até 23 de fevereiro de 2020, a exposição reúne ainda outros projetos da fotógrafa, em diálogo com obras de Mário de Andrade, Ariano Suassuna e Jorge de Lima. Em todos, há uma união entre literatura, imagem e memória, como pontua o curador: “Embora possamos especular e propor interpretações e classificações, não há um conceito teórico estrito a nortear a interseção entre literatura e fotografia feita por Maureen Bisilliat. Ela traz a questão para um plano mais pessoal, do afeto e da memória. E, como uma história muito bem contada, atinge a todos nós.”

 

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