Nora Esteves a eterna primeira bailarina do Theatro Municipal é a nossa diva de estreia de 2019

On 3 de janeiro de 2019 by Ze Ronaldo

Nora Esteves, ícone da dança nacional é a nossa primeira entrevista de 2019. Estive com ela algumas vezes e rodamos pela cidade. Fomos ao charmoso bairro da Glória, no Centro de Movimento Deborah Colker, bebericamos na Taberna da Glória, assistimos a um espetáculo no Teatro Cacilda Becker e conversamos em seu delicioso apartamento em Copacabana, só não fomos à sua “casa”, o Theatro Municipal. Foram momentos únicos. Estórias, conversas e um breve mergulho no mundo do ballet clássico nacional e internacional.

Nora é prodigiosa. Deu seus primeiros no mundo da dança quando ainda criança aos 8 anos vestiu sua primeira malha de ballet e suas sapatilhas. O talento foi logo percebido e depois adolescente era tratada como uma garota prodígio, porém entendimento dessa palavra não estava completo ainda na sua cabeça. Precisou de um tempo dançando pelos palcos do mundo e construir a carreira sólida para realmente entender o significado da palavra “prodígio”. A magia do palco começou a brilhar na bailarina, logo nos seus primeiros espetáculos. O desempenho, a admiração e o mundo ballet clássico deslumbrou a menina que queria apenas encontrar sua autoestima e desabrochar.

Nora Esteves – Foto Daniel Benassi

Além dos seus triunfos particulares, que foram muitos e todos muito cedo, Nora conta que o substantivo “prodígio” veio através da disciplina, do afinco aliada a eterna busca da perfeição dos movimentos até a exaustão. Nos anos 80 depois de sua carreira internacional solidificada a bailarina retornou a sua casa, ao Theatro Municipal e também começou a dar aulas e assumiu sua carreira de professora. Uma dedicação generosa da sua arte aos iniciados na dança clássica que buscam encontrar a perfeição seguindo os passos da eterna primeira bailarina do Theatro Municipal

Aos dezessete anos Nora Esteves foi alçada a primeira bailarina do Theatro Municipal, nunca houve uma nomeação de uma bailarina tão jovem para o cargo até hoje. Talvez, daí tenha surgido o substantivo que personifica Nora. Sempre acompanhada pela mãe, ela se surpreendeu, mas nem tanto. Técnica, disciplina, o rigor estético do movimento eram suas principais ferramentas e a fez alcançar o estrelato internacional.  “Ninguém é muito pródigo em elogios na dança”, disse ela. Tudo que Nora percebia na época eram olhares de admiração muito discretos.

Nora Esteves – Foto Daniel Benassi

Entre um chopp e uma mordida no frango á passarinho, as estórias bailam. Primeiro conquistou Nova York ainda com 18 anos e depois a Europa. Gaúcha, mas totalmente incorporada ao estilo carioca. Nora circula pela cidade de uma aula para outra desde o tempo de Dona Tânia, a precursora Tatiana Leskova e se desdobrando entre a escola do teatro Municipal e as aulas particulares e até hoje o ritmo é o mesmo. Aula no Municipal e aula no centro de Deborah Colker.

O tempo não parou e a bailarina professora percorre o mundo hoje como sempre.  O bailarino e coreógrafo William Dollar foi o primeiro estrangeiro a aplaudir Nora Esteves e depois vieram vários, coreógrafos, diretores, bailarinos o mundo abraçou Nora Esteves por mais de uma década. Contratada pelo Joffrey Ballet, a bailarina apresentou-se pela costa oeste e em Nova York no City Center, por um ano.

Nora Esteves – Foto Daniel Benassi

Da Europa veio o coreografo russo naturalizado americano George Skibine para montar no Theatro Municipal, o ballet  “Daphnis e Cloé” de Ravel e “Pássaro de Fogo” e mais uma vez Nora Esteves brilhou e brilhou tão forte que o coreografo a convidou para dançar “Sherazade” com o Théâtre Populaire de Reims-Compagnie Robert Hossein e viajaram em turnê pela França, Bélgica, Itália e outros países.

Em Paris, Nora Esteves passa a frequentar as aulas de Raymond Franchetti, maitre de ballet da Ópera de Paris, e ele a introduz ao casal 20 do ballet francês Roland Petit e Zizi Jeanmaire. “Era um estúdio de ensaios estelar. As maiores estrelas do ballet mundial que passavam por Paris iam ter aulas no estúdio, uma coisa essa aula, eu era fã deles e Roland foi assistir “Sherazade” e ele me convidou para dançar no Ballet de Marseille e eu assinei o contrato ali no chão da sala de ensaio”, conta Nora.

Nora Esteves – Foto Daniel Benassi

Nora Esteves é uma das estrelas brasileiras que mais se destacaram no ballet clássico mundial. Suas relações e suas passagens pelos palcos lhe trouxeram uma experiência única. De volta ao Brasil, Nora teve a felicidade de encontrar em Dalal Achcar, então diretora do ballet do Theatro Municipal, outra cidadã do mundo e com ela participar de uma dos melhores períodos do teatro. Bailarinos vinham dançar no Rio e Nora dançou com Fernando Bujones, Richard Cragun e até com seu preferido Cyril Atanassoff, no balé Quebra Nozes e também o cubano Lazaro Carreño que era um dos seus preferidos.

Os balés Lago dos Cisnes, Copélia, Giselle, Quebra-Nozes, A Bayadera, Corsário, sendo a primeira bailarina no Brasil a dançar o pas-de-deux desse balé, foram alguns que Nora Esteves dançou na gloriosa temporada que Dalal Achcar comandou o Theatro Municipal, a casa do balé clássico no Brasil.

O mundo do balé é extremamente competitivo e psicanálise ajudou Nora Esteves a entender melhor essa realidade e foi a impulsionando cada vez mais a partilhar o que ela sabe a técnica da dança, a perfeição do movimento. Até hoje mesmo depois de ter se retirado do palco Nora dá aula e faz aula todos os dias da semana. “Eu gosto de botar a mão na massa dar três a quatro aulas por dia, ir a estreias, ver talentos. Chego ás 5 depois das aulas e vou para academia e faço uma série de duas horas e depois brinco com o cachorro, sou pró–ativa. Eu trabalho e amo meu trabalho, e sou orgulhosa do meu percurso”, comenta Nora.

Em 2018, Nora Esteves recebeu um convite muito especial.  Ela foi convidada para ser membro do júri do “Prix Benois de la Danse”. O prêmio foi criado em 1991 e concedido pela International Dance Association in Moscow, que anualmente premia os melhores da dança no ano. Compositores, coreógrafos, bailarinos e bailarinas. E lá foi Nora para Moscou apontar os melhores do ano na dança.  ‘Esse convite é uma prova que meu percurso na dança foi especial”, fala Nora. Entre os premiados desse ano está a coreógrafa brasileira Deborah Colker, que foi indicada por Nora.

Nora foi a Moscou e São Petersburgo ano passado e em agora em 2019 Nora vai para Roma dar aula para o Ballet da Ópera de Roma e fazer a assistência para a montagem do balé “La Sylphide”, também a convite e de outra estrela Eleonora Abbagnato, bailarina da Paris Opera Ballet e diretora do Teatro dell’Opera di Roma. Nora não para e em 2019 ela está pronta para continuar seu exercício diário de ser uma etoile do ballet nacional.

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