Cristina Burlamaqui conta um pouco da sua incrível jornada no mundo das artes plásticas no “Quarenta Views”

//Cristina Burlamaqui conta um pouco da sua incrível jornada no mundo das artes plásticas no “Quarenta Views”

Cristina Burlamaqui conta um pouco da sua incrível jornada no mundo das artes plásticas no “Quarenta Views”


Cristina Burlamaqui é inteligente e sensível. Sua presença no mundo das artes plásticas é marcante. Se ela esteve em alguma exposição de algum artista novo é sinal de sucesso.

Sua relação com as artes plásticas vem de bem cedo e o assunto a tomou pela paixão e adição, segundo ela “arte é um vício”.  – “Quanto a gostar de arte, li que Freud dizia que para não ficar doente existia a Arte! Arte é a  salvação”.

Cristina estimula a conversa sobre a arte e conviveu e convive com vários artistas sempre interessada no processo e na pesquisa. Ela mesma nunca se cansa de estudar e buscar novidades.  Conversamos com Cristina Burlamaqui e precisamos conversar sempre. Não só informações são estórias e também aquele hábito de ouvir que só as pessoas interessantes mesmo concedem.

 

 

1) Quando começou o seu interesse pelas artes plásticas?

Começou muito cedo com ótimos professores de História da Arte no colégio, conhecendo Cézanne, os impressionistas quando ainda se estudava filosofia e latim – sou da área de humanas

2) Qual é a sua formação?

Sou formada em Jornalismo pela PUC, do Rio de janeiro com Pós Graduação em História da Arte e Arquitetura da PUC, RJ

3) O que move seu interesse por um artista a sua paixão ou a técnica do artista?

Uma coisa não exclui a outra mas sim, a experiência visual do mundo que eu vejo que é o instrumento da minha compreensão. Meu campo visível me oferece entrar de modo infinito que me faz ver e pensar “ o instante do mundo” Ou seja, o olho é inteligente e capta o todo da obra.

4) A linha e abstração te emociona ou te questiona?

A experiência se dá a partir do mundo aonde a geometria é o fragmento do mundo… e a reflexão precisa do mundo visto – é o pensamento do ver, é a alegria de ver e pensar!

5) Você desenhou joias conta um pouco sobre essa experiencia?

A joia surgiu a partir das pedras preciosas ou semipreciosas brasileira cortadas a laser mas com uma questão inédita na época (anos 90) e, que até causava estranheza nas pessoas. Eu sempre pensei  na energia das pedras que desde a memória humana são usadas em adornos, amuletos e até como cura como a Turmalina-verde que os gregos usavam e a viam como a pedra que trazia luz à escuridão e muito usada na mitologia grega nas deusas e templos.

É claro que, para mim era uma forma de pesquisa e estudos indo Egito Antigo a mente humana que é a pedra mais preciosa a ser lapidada e assim fiz revisões fugindo de análises profundas…e, uso uma turmalina-verde para não cair… como os antigos usavam para não cair do cavalo… nos dias de hoje, está difícil. 

Fiz joias contemporâneas e outras nem tanto… fiz uma ou outra exposição e, depois só joias pessoais até que tudo terminou quando meu amigo lapidário faleceu, há quatro anos. A  verdade é uma só: amo as pedras, seu brilho, seu fascínio principalmente quando muito bem lapidadas. E, as energias que cada pedra traz consigo…
portanto sempre parti da beleza e formato da pedra para o desenho e,  não ao contrário que o mais normal. A pedra era o principio de tudo até o desenho e acabamento!

6) As esculturas: Você conheceu grandes escultores e o que te fascina neles?

Seria mais fácil responder quem não me fascina pela precariedade de pensamento… mas vamos lá: Sergio Camargo me envolve espacialmente pelo princípio construtivo nas suas esculturas de mármore branco assim como as celebres Baleias de mármore negro belga na sua singularidade geométrica no nosso universo brasileiro  de caráter universal assim como seus Relevos de madeira e dinamismo de contrapostos.

Não é questão de fascinação mas de como o artista trabalha o plano, as suas relações formais: ser estruturada e abstrata ao mesmo tempo. Quase todos os Bichos da Lygia “vai ao plano”, como ela dizia: mesmo assim tem uma potência dinâmica na medida que o espectador pode intervir… Aprecio a dinâmica espacial de Amilcar de Castro em suas esculturas de ferro principalmente, as que tem espessura grossa .

Mas quem me fascina já que a questão é fascinar: é Tunga alquimista que fundamenta sua obra no processo de alquimia sem perder a poesia da pulsão da vida versus tensão cerebral assim como a questão da sensibilidade versus sexualidade.

Os trabalhos do Siri, que começou no EMCB, com suas Metaleiras também estão no meu caderno de desejos e outras mais como Iole, sempre a dama da Arte, Iole de Freitas com suas formas dançantes de grande força escultural, Tatiana Grinberg com suas experimentações de fluxos de corpos e objetos. Barrão, incrível Barrão!

E, o novo Mulambö com sua “Dentadura de tijolos”.

6a) Sobre a Ligia Clark fala um pouco da sua relação com o trabalho da artista? 

Surgiu antes mesmo da tese sobre Lygia Clark já que o abstracionismo brasileiro entrou no meu horizonte no meio da pós… e na conclusão do curso da PUC, fiz a tese  “Lygia Clark , Dissolução entre Arte e Vida” com orientação de Ronaldo Brito aonde mergulhei no Merleau Ponty, nos escritos maravilhosos e precisos da artista e sua obra e, depois segui como pesquisadora para um catalogo raissoné de Lygia Clark que nunca saiu mas que depois resultou no prosseguimento da pesquisa junto a Luciano Figueiredo e Manuel Borja-Villel na época diretor da Fundação Tapiès, para uma grande retrospectiva  que começou em Barcelona, depois Marseille, Bruxelas, Lisboa e que retornou ao Brasil aonde fui curadora da exposição no Paço Imperial do Rio de Janeiro. Foi muito gratificante conhecer todas a as obras e descobrir aonde estavam as pinturas, os desenhos, os Bichos, as Superfícies Moduladas, as Unidades… naquela época não se falava em Lygia Clark só os entendidos e poucas galerias.

Claro, que tinha alguns colecionadores que possuíam uma peça, mas no começo da pesquisa três anos antes, tinha alguns que sabiam que tinham mas não sabiam onde estava…e, ela mesma tinha deixado a obra de arte que em Paris (1964) passou para a questão sensorial. Cheguei a conhecer apesar de evitar visitas, mas aprovou meu texto e me apoiou -me recebendo sempre muito delicada e com sua mente ativa e sagaz no seu apartamento de Copacabana.

Lygia foi uma mente brilhante e ativadora da arte contemporânea brasileira e pioneira que em Londres na Signals junto a Guy Bret na Bienal de Veneza deslumbrou os visitantes com seus Bicho! Lygia diriam : estava a frente de seu tempo—mas ninguém está a frente do seu tempo – só podemos estar nesse tempo mas ela como Oiticica desenvolveram uma obra muito atual, sofistica e simples ao mesmo tempo, rompeu padrões estéticos, livrou a pintura da moldura depois soltou a pintura da parede…

7) Sobre o colecionismo como você pensa esse assunto?

Colecionismo como é visto hoje, não sei classificar –no meu caso, não é colecionismo, é vício, mesmo!

O que tenho é um corte ínfimo do Neoconcretismo Carioca, um olhar sobre Volpi e outros artistas como Dacosta, Iberê, Sued, Camargo, Mira, Amilcar de Castro, Franz Weissman, Hélio Oiticica , Tunga, Jorge Guinle, José Rezende, Iole de Freitas, Maria-Carmen Perlingeiro e alguns jovens…. claro , sempre com a Mona Lisa deles…

8) E o Espaço Movimento Contemporâneo Brasileiro qual é a programação do  segundo semestre?

O Espaço Movimento Contemporâneo Brasileiro (2013) é um espaço de slow arte ( não gosto de palavras estrangeiras mas no caso, assim defini na época, ninguém falava  e hoje, tudo é slow) o quer dizer que não tenho obrigação de programação definida.

Tinha um Movimento com Gabriela Gelli em março 14, que foi sendo adiado e agora pretendemos fazer quando der… e, também um Movimento com o artista Bob N.

9) Você é conhecida por projetar novos artistas o que você tem visto que te chama atenção?

Sempre fui atenta a novos olhares e novas experiências que surgem e principalmente, dos novos artistas, sou sempre a primeira a apostar claro, quando vejo algo relevante… 

Mas, por outro lado, acho que vale a como o artista francês Romain Dumesnil que por acaso fez dois anos seguidos de Movimentos no EMCB que hoje, desponta com vários trabalhos pelo mundo a fora,  assim como Maria Medeiros , sua companheira em exposições Singapura, Hong Kong que atualmente, fez live com uma galeria importante de NYC…Isto é gratificante – quando confirmo o meu olhar…

10) Como está sua rotina na quarentena? O que você tem lido ou assistido? 

Dizem que tenho vida barroca  e olho contemporâneo portanto estamos em harmonia… Faço ginástica pela manhã e a tarde algumas leituras e pesquisa de arte: Yves Klein, Morellet e um vai e volta de leitura/releitura da Peste de Camus ( para cair na real) e os Ensaios de Montaigne além de assistir aulas do professor Ronaldo Brito na internet.

Gostaria de ver filmes antigos de Truffaut – mas assisti a serie Peaky Blinders, muito forte mas interessante já que é sobre gangues na Inglaterra e principalmente pelo fato histórico já que esta gang de ingleses, irlandeses e ciganos existiu realmente entre 1890-1930, em Birminghan e  atuavam com jogos e apostas, suborno, contrabando enredada com a política de Churchill, dificuldades na Inglaterra e os surgimentos de partidos e ideias radicais…

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